As boas e más notícias para 2017

2016 foi um ano repleto de boas notícias para o Mercado, fazendo a bolsa encerrar o ano em forte alta. 2017 promete uma nova rodada de boas notícias apesar da continuação da turbulência política

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2017
É dada a largada para 2017

2016 foi um ano repleto de boas notícias para o mercado. Começou com o afastamento da Dilma em maio, que representou o fim das políticas heterodoxas do Partido dos Trabalhadores, que muito prejudicaram a economia do país. Depois, na montagem do gabinete de Temer, teve a volta de Henrique Meirelles para o comando da economia. Ex-banqueiro e ministro da fazenda no período mais frutífero da história recente, a entrada de Meirelles trouxe credibilidade de volta a política econômica do governo, e a esperança de uma recuperação mais rápida. Impeachment DilmaEm seguida, uma das primeiras medidas propostas por ele foi a PEC dos gastos, que limita o crescimento das despesas do Estado e tem suma importância para o equilíbrio fiscal no longo prazo. Apesar da ferrenha oposição, a PEC foi aprovada com facilidade na Câmara e caminha a passos largos para aprovação no Senado. No meio do caminho a Lava-Jato continuou fazendo vítimas, derrubando Romero Jucá, homem de confiança de Temer, do Ministério do Planejamento, Henrique Alves do Turismo, Fabiano Silveira da Transparência e Fabio Osório da Advocacia Geral da União. Em nenhum desses casos Michel Temer foi envolvido. No final do ano, o atrito entre o Ministro da Cultura Marcelo Calero e o da Secretaria de Governo Geddel Vieira Lima derrubou ambos e envolveu Temer, gravado inadvertidamente. Revelou-se, entretanto, uma atuação do Presidente republicana e dentro dos limites da sua função, passando incólume pelo episódio. Por último, o governo enviou ao Congresso a reforma da previdência, parte mais importante do ajuste econômico, e surpreendeu positivamente nos termos propostos, mais rígidos do que o esperado. Assim, apesar da instabilidade institucional, 2016 foi um frutífero para o novo Governo e proveitoso para os mercados, que reagiram positivamente às boas notícias, fazendo o índice Bovespa caminhar para um alta de aproximadamente 40%.

Apesar da política ainda causar perturbações como na recente guerra entre Renan Calheiros e o STF, o Mercado Financeiro entendeu que houve uma pacificação ao redor de Temer, e por isso começou a migrar o foco de preocupações da política para a economia. Desde a divulgação dos dados econômicos de Setembro, que mostraram uma fraqueza maior que o esperado, os analistas começaram a revisar as projeções de 2017 para baixo, e junto o Ibovespa se enfraqueceu. Quinta-feira dia 08 o Bradesco foi a primeira grande casa a projetar PIB negativo para o ano que vem, queda de 0,2%. O que esperar, então, para 2017?

Uma boa notícia esperada é a aceleração do corte de juros pelo Banco Central. O presidente Ilan Goldfajn sinalizou que os próximos cortes serão maiores que os últimos, fazendo a expectativa do mercado migrar para 50bps em janeiro. Por outro lado a economia está mais fraca que o projetado e o câmbio está bem comportado, o que reduz a expectativa de inflação e permite cortes ainda maiores, de 75bps. Esta pode ser a maior surpresa do ano, e beneficiaria empresas muito endividadas e expostas ao CDI, como a BrMalls.

Outro evento importante para monitorar é o pacote de concessões previsto para 2017 e 18, que prevê a venda de 34 projetos espalhados em 10 setores diferentes. Apenas no ano que vem o governo pretende arrecadar R$ 24 bilhões com as concessões de aeroportos, rodovias, ferrovias, portos, companhias de saneamento, entre outros. Esta é uma meta ambiciosa frente a complexa burocracia brasileira, que trava os processos licitatórios, por isso o mercado espera uma arrecadação menor. Se o governo entregar o prometido, será uma surpresa positiva, e trará um estímulo adicional à economia através do aumento de investimento. Além disso, as melhorias em infraestrutura aumentam a competitividade externa, o que favorece a balança comercial. Por outro lado o governo pode decepcionar e vender poucas empresas em 2017, postergando o resto para 18. A falta de investimentos pode retardar a lenta recuperação da economia. Ainda assim, os processos licitatórios serão positivos para o país, e a venda das empresas de saneamento estaduais, como a Cedae do Rio de Janeiro, pode aliviar a situação de estados quebrados. A empresa da bolsa com maior exposição à investimentos em infra-estrutura é a Mills, especializada na locação de equipamentos e no escoramento de estruturas em obras.

Na política deve continuar a mesma incerteza do ano que termina. O aprofundamento da Lava-Jato atingiu partidos da base como o PMDB e o PSDB, e a delação da Odebrecht assinada recentemente envolveu diretamente o presidente Temer. Apesar das denúncias conterem tanto caixa 2 de campanha quanto favorecimento pessoal, um processo de impeachment ainda é improvável pois Temer tem apoio da ampla maioria no Congresso. Uma prova é a PEC dos gastos que deve ser aprovada com tranquilidade na próxima semana, até dia 15 de dezembro. Para o governo perder o apoio nas Casas a ponto de viabilizar o impeachment é necessário grande pressão popular. Como a avaliação presidencial é correlacionada à situação econômica do país, o quanto antes a recuperação começar, mais cedo ares melhores atingirão à população, o que diminuirá o impacto das revelações da Lava-Jato. Por outro lado, se a recuperação atrasar, estas revelações podem incitar manifestações por todo o país e comprometer a governabilidade, atrasando ainda mais a recuperação da economia. Trazendo mais incerteza, em 2017 será julgado o processo contra a chapa Dilma-Temer no TSE, no qual respondem por uso de caixa 2 com dinheiro do esquema na Petrobrás. Temer vem tentado dissociar as suas contas da Dilma, e existe o precedente de Roraima em 2009 que se aproxima do atual, quando o vice-governador não foi caçado apesar de comprovadas irregularidades na campanha do seu colega de chapa, que faleceu após as eleições. Apesar disso, o TSE pode condenar a chapa, o que afastaria Temer e levaria à eleições indiretas, na qual votam apenas os Congressistas. Se isso acontecer, vencerá o candidato do atual bloco governista, que através dele continuará no comando. Assim, apesar do risco crescente de Temer não terminar o mandato, dificilmente aconteceria uma outra mudança no grupo governante e nas políticas econômicas, que realmente importa para os mercados.

A maior fonte de notícias negativas do próximo ano deve ser a reforma da previdência, com aprovação prevista para o meio do ano. O texto enviado ao Congresso foi mais rígido que o esperado, com idade mínima igual para homens e mulheres, e 49 anos de contribuição para ter aposentadoria máxima, o que foi aplaudido pelo Mercado. Reforma PrevidênciaApesar de mal ter começado a tramitação, como esta reforma afetará grande parte dos brasileiros, ela já começou a gerar comoção social. Assim é alta a probabilidade do texto ser deformado pelos Congressistas, diminuindo a eficácia da reforma. Esta será uma longa e árdua batalha, e como a boa proposta será atacada, as notícias geradas serão negativas.

Apesar do ajuste fiscal ser indispensável para o equilíbrio das contas no longo prazo, e o principal pilar ser a reforma da previdência, a retomada do crescimento é tão importante quanto o ajuste no curto prazo. Assim, mesmo que a reforma traga notícias negativas ao longo do ano, se o governo tiver sucesso no estímulo à economia com o corte dos juros e as concessões, as projeções de PIB serão revisadas para cima e a Bovespa continuará sua caminhada rumo às máximas históricas. Temer pode não terminar o mandato, mas se deixar o rumo até 2018 bem definido, o Mercado não irá se importar. Quem viver, verá.