As vezes lados opostos conspiram para o mal comum

Renan e Barbosa. Lados opostos da força. O mal e o bem. Por motivações diferentes, contribuem para alimentar o mesmo caos.

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Renan Calheiros e Joaquim Barbosa
Joaquim Barbosa e Renan Calheiros

Renan Calheiros é, sem sombras de dúvidas, parte do que temos de pior no Brasil. Aqui não me refiro a “capacidade técnica” ou potencial do senador por Alagoas, mas a certeza que qualquer que seja o partido no poder, quaisquer que sejam os temas em apreciação, ele sempre pensará como aquilo se refletirá em sua posição pessoal, seja para encobrir suas falcatruas, seja lhe creditar “goodwill” junto se seus pares. A única coisa que parece não lhe dizer respeito é o interesse público.
Foi um dos pilares do Collor, mesmo quando seu governo se mostrava insustentável. Foi ágil em se transformar em Ministro de FHC. Foi um dos apoiadores principais de Lula e, até o final esteve do lado da Dilma, ameaçando, o quanto pode, o processo de impeachment.
No final, aos 48′ do segundo tempo, rasgou a Constituição e, numa manobra heterodoxa, preservou à Dilma seus direitos políticos.
Ontem o Senador, sabendo-se encurralado pelo STF que hoje decidirá seu futuro, tal como
uma ratazana em fuga, tentou fazer uma manobra que eventualmente lhe renderia algumas horas a mais de vida política. Com isso ele jogou mais lenha na fogueira que está incendiando o país. Ele contribuiu apenas para ajudar a desestabilizar o governo do Temer, que por ironia do destino, pertence ao mesmo partido que o seu.

Do lado oposto ao do mal feitor, está o “bastião” da justiça. O ex-Ministro Joaquim Barbosa, homem das leis e principal destaque da ação penal 470, vulgo mensalão. Sua atuação deveria ser medida mais pelos resultados e menos pelo “mise en scène”. O maior escândalo de corrupção da história da humanidade, o petrolão, nada mais foi do que à continuação do mensalão. Isso ocorreu apenas porque as penas do mensalão foram bastante leves, após o efeito dos embargos, e deixaram de fora os principais agentes responsáveis pelos crimes, a começar pelo “chefe”.
O ex-Ministro escreveu hoje na Folha de São Paulo. Ele reforça a tese do “golpe” e declara o atual governo sem legitimidades. O povão vê Barbosa como um símbolo da justiça, uma espécie de herói nacional. Sua imagem sempre foi preservada pela mídia, desde os erros na condução de processos, até sua baixa produtividade. Bem diferente do juiz Sergio Moro, que erra pouco e trabalha muito, mas ao invés de ser destacado com a mesma euforia pela mídia, recebe como acompanhamento o olhar de desconfiança e de desconstrução de sua longa e bela trajetória, que precede o Petrolão.

Renan e Barbosa. Lados opostos da força. O mal e o bem. Por motivações diferentes, contribuem para alimentar o mesmo caos por muitos desejado. Sabemos que de boas intenções, o inferno está cheio. Um país não acaba. Estão ai os exemplos da Grécia, Venezuela, Cuba e Coréia do Norte que não me deixam mentir. O país não acaba, mas pode ficar por décadas nas lonas, com seu povo enfrentando as mais diversas carestias e com
poucas esperanças de melhoria no futuro.

Há que se ter a ciência exata de quão delicado é o momento que estamos vivendo. Nossas instituições são sólidas. O problema é que seus ocupantes são, muitas vezes, de caráter fluido. O longo e capenga processo de Impeachment foi uma síntese destas premissas. Infelizmente o custo destes anos de negligência podem ser mensurados através dos 14 milhões de desempregados, dos 160.000 pontos de comércio que fecharam suas portas nos últimos dois anos, na queda inédita de arrecadação e nos menores indicadores de confiança de nossa história.

O governo Temer é o bote salva-vidas que nos resta. Ele serve para nos levar a 2018. Lá em 2018, parece haver luz. Ajudar a afundar o bote salva-vidas, me parece fruto do desespero ou dá má fé.

É preciso muita prudência e muita responsabilidade neste delicado momento. Gritar “fogo” é, usualmente, uma medida de alerta aos desatentos, mas se for em meio a uma multidão, pode ser o estopim para a tragédia.

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