Carta Mensal da GTI: Gordon fala sobre política, economia e mercados

Na carta mensal de Novembro, André Gordon descreve as perspectivas para política, economia e mercados para os próximos meses

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Prezado cotista,

O mês de novembro foi marcado pelo aumento da volatilidade nos mercados. Podemos atribuir esse fenômeno a dois fatores principais: no campo externo, a vitória de Donald Trump para a presidência dos EUA e, no campo doméstico, ao início de uma nova crise política, esta artificialmente produzida.

Novembro foi o primeiro mês negativo do fundo desde maio, com queda de 1,9%. O índice IBOVESPA caiu 4,7% no período. O desempenho superior ao do índice, apesar de nosso portfólio ter características de maior Beta em relação a ele, se deveu ao forte desempenho das ações da exportadora de celulose Fíbria, que subiu pouco mais de 20% no mês devido a uma tímida recuperação nos preços da celulose combinada com uma queda de 5% no Real. Tínhamos também um pouco de hedge com índice Ibovespa, que juntamente com as ações da Fibria, contribuiu, para este desempenho.

A mídia estava em polvorosa com a então provável vitória da candidata democrata Hillary Clinton. Os principais veículos, alguns dos quais que chegaram a atribuir 98% de chances de vitória para ela, afirmavam com veemência que uma eventual vitória do candidato republicano provocaria um caos nos mercados, pois romperia acordos comerciais, deportaria milhões de pessoas, levaria o país a guerras e seria responsável por levar a dívida do país à estratosfera. Criou-se um clima de apreensão, conforme as vésperas da eleição, fora anunciada nova investigação do FBI em referência ao uso, pela então Secretária de Estado, de um servidor pessoal de e-mails para tratar de assuntos de segurança nacional. Nossa visão era um pouco diferente do consenso. Acreditávamos que as eleições estavam muito equilibradas e que os principais institutos de pesquisa poderiam estar incorrendo em alguns erros como, por exemplo, subestimar o efeito de eleitores que não costumam votar, mas que foram seduzidos pelo discurso do republicano. Esperávamos uma reação negativa dos mercados num cenário destes. Sem dúvidas, como colocamos em nossa última carta, a vitória de Trump aumentaria as incertezas no curto prazo, mas traria uma maior certeza para médio e longo prazo de que o país voltaria a ser governado por um capitalista. Acreditamos que a vitória do Partido Republicano, tanto na câmara dos deputados como no Senado, ajudará a preservar os principais valores do partido, entre os quais o livre comércio e a disciplina fiscal. Passada a surpresa inicial, as bolsas norte-americanas se apreciaram, assim como o dólar frente a maioria das moedas. Há forte expectativa que em poucos dias teremos o início de um lento processo de elevação da taxa de juros do FED.

Já no campo doméstico, houve uma piora nos principais indicadores de confiança e o produto caiu pelo sétimo trimestre consecutivo. A taxa de desemprego segue aumentando, ultrapassando os 12%. Como reflexo positivo, a inflação parece que começou a ceder e as expectativas para 2017 se aproximam do centro da meta. O BC agiu, novamente, de forma mais conservadora e cortou 0,25% na taxa SELIC, para 13,75% ao ano. O aumento nos riscos externos foi um dos fatores que levou o BC a seguir este ritmo mais suave. Acreditamos que na próxima reunião, em janeiro, a velocidade no corte deve ser elevada para 0,50%. Mas não foi apenas a piora nos principais indicadores econômicos que justificou a forte queda nas principais ações da bolsa.

No Congresso, o governo Temer mostrou que tem maioria folgada. Aprovou a PEC 241 em dois turnos na Câmara dos Deputados, com ampla maioria e com todos os destaques rejeitados. Já no Senado venceu em primeiro turno por 61 x 14. Aguardamos para 13/12 a votação final desta importante Emenda Constitucional e que limitará os gastos do governo, em termos reais, por 20 anos. Há sinais de que o projeto de Reforma da Previdência seja enviado para o Congresso ainda neste mês de dezembro. Em caso positivo, sua tramitação seria iniciada este ano e sua aprovação deverá ocorrer ao longo do primeiro semestre de 2017.

Mas não só de vitórias vive o governo Temer. Houve, ao longo do mês, o início de uma crise política. Parece haver alguns indícios de que há setores interessados em desestabilizar seu governo. Uma crise iniciou-se no MinC, tendo como protagonista o irrelevante Marcelo Calero e Geddel Vieira, um dos principais articuladores políticos de Temer junto ao Congresso. O assunto que teria sido ignorado diante das graves agruras que o país atravessa,  ganhou destaque na mídia e nas redes. Como consequência, ambos pediram para se afastar. Também houve a tentativa de creditar a Temer uma Lei de anistia, que na prática tipificava o crime de caixa dois eleitoral. Esta Lei não seria nem de anistia aos crimes e muito menos seu projeto partira do planalto. Rodrigo Maia tirou o projeto de Lei da pauta, depois que o presidente falou que vetaria qualquer tipo de anistia. Sob esse clima de tensão, um esquecido ex-chefe de gabinete do ex-presidente FHC escreveu num dos principais jornais sobre a volta de FHC à presidência, através de eleições indiretas. Como jabuti não sobe em árvore, alguém o colocou lá. FHC seria o nome mais provável dentro do PSDB para representar o partido em meio às brigas fraticidas entre Serra, Aécio e Alkmin. FHC teria também a oportunidade de tentar limpar sua biografia denegrida pelos anos de PT, que trataram seu legado como “herança maldita”. Como se não bastasse as “bolas de curva”, houve também rumores de que Temer estaria insatisfeito com os resultados vindos da Fazenda. Achamos difícil alguém atribuir ao Ministro Henrique Meirelles a responsabilidade pela atual conjuntura. Ele recebeu um país cuja economia estava em estado terminal, indicou profissionais de extrema competência para as estatais mais problemáticas, com destaque para a Petrobrás e o BNDES e deixou a cargo do BC o excelente economista, Ilan Goldfajn, cujo mandato requer a tão desejada independência na atuação. Por hora, são apenas rumores.

Por fim, está sendo selado o acordo de delação premiada da Odebrecht, maior empreiteira do país. Seu conteúdo ainda não é público, mas especula-se que poderá comprometer alguns integrantes do governo, além obviamente dos caciques do PT, a começar pelo ex-presidente Lula, cuja prisão vem sendo aguardada faz alguns meses. Se o governo sobreviver a esta tempestade, iniciará 2017 numa situação um pouco mais favorável. A calmaria deverá contribuir para a retomada da atividade econômica e, consequentemente, da lenta recuperação em seus indicadores, culminando com a recuperação no nível de emprego, que só deve ocorrer a partir do segundo trimestre.

Em termos de portfolio, vendemos as ações da Fíbria e adicionamos empresas que tendem a se beneficiar com a queda nas taxas longas de juros, que sofreram ao longo deste mês. Entre elas, investimos novamente na BR Malls, num preço 20% abaixo do preço que havíamos vendido suas ações, em julho, apesar dos bons resultados operacionais da empresa e da empresa de energia Copel. Também reduzimos algumas posições vendidas e que nos serviam como hedge parcial, principalmente no setor de varejo e de locação de automóveis.

Iniciamos então o mês de dezembro um pouco mais apreensivo com a política, ligeiramente decepcionados com a parte econômica, mas novamente com investimentos em empresas de perfil mais relacionado aos setores domésticos e cujos preços, na maioria dos casos, seguem bastante aviltados.

Termino parafraseando o maestro Tom Jobim; “o Brasil não é para principiantes”.

 

Andre Gordon

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