Eleições 2018, Cap.2 – O PT está no segundo turno?

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Com a Bolsa zerada no ano apesar dos avanços na economia e no resultado das empresas, as eleições ganharam relevância para os investimentos. Caso um candidato liberal como Alckmin, Bolsonaro ou Marina vençam o pleito, enxergamos grande potencial de valorização das ações. Do outro lado, um programa de governo intervencionista como Lula (Haddad) e Ciro seriam mal recebidos pelos mercados e causariam perdas de curto prazo. Nos preços atuais, avaliamos que a Bolsa precifica maior probabilidade de vitória de um candidato intervencionista. Nossos estudos, entretanto, apontam para a vitória de um candidato liberal.

Assimetria da Bolsa

o Ibovespa costuma negociar entre 10 e 14 vezes o lucro 1 ano a frente das empresas que compõe o índice. Este indicador é afetado pela expectativa de crescimento e pela taxa de desconto. Quando as perspectivas de crescimento de lucro são boas, a bolsa sobe e negocia a um múltiplo mais alto. Quando as perspectivas são ruins, mais baixo. Nos últimos trimestres a lucratividade das empresas voltou a subir e espera-se a continuação da melhora. Apesar das boas perspectivas, a bolsa está negociando perto dos múltiplos mais baixos.

Preço/Lucro do Ibovespa 12 meses à frente (fonte: Bloomberg)

A taxa de desconto também afeta diretamente o múltiplo que a bolsa negocia. Quando a taxa de juros de longo prazo permanece baixa por muito tempo, os mercados reduzem a taxa de desconto das ações e o preço/lucro da bolsa expande. Após vários anos de taxas de juros próximas a zero, o preço/lucro do S&P (bolsa americana) expandiu significativamente.

Preço/Lucro do S&P 12 meses à frente (fonte: Bloomberg)

A taxa de juros de 10 anos do Brasil estava nos menores patamares da história até o início do ano, e voltou à média histórica recentemente.

Taxa de juros de um título brasileiro sintético de 10 anos (fonte: Bloomberg)

Juntando as partes da equação, chegamos a um cenário assimétrico para estas eleições. Se um candidato intervencionista assumir a presidência, acreditamos que o Bovespa pode chegar próximo ao preço/lucro de 8,5 vezes, o mais baixo que negociou nos últimos 10 anos, implicando uma queda de -20%. Por outro lado, se um candidato liberal e reformista assumir, acreditamos que o mercado precificará nas ações os 2 efeitos ao mesmo tempo: a aceleração do crescimento da empresas, e uma taxa de juros mais baixa por um longo período. Com isso achamos que a Bolsa irá superar a parte de cima da banda que negocia, ultrapassando +40% de alta.

Quais candidatos têm maior chance de chegar ao segundo turno?

Estas eleições presidenciais começaram únicas pelo líder das pesquisas ser um presidiário e por ser a primeira sob as novas regras de campanha. O tempo total de campanha caiu de 90 para 45 dias, e a propaganda no rádio e na TV foi reduzida de 45 para 35 dias. Por último, o financiamento privado de campanha foi proibido e as chapas passaram a dividir, de forma desigual, o fundo eleitoral.

O esforço de campanha mais curto e mais concentrado torna difícil a comparação com as outras eleições para presidente nesta mesma época do ano. A dispersão dos votos entre os candidatos também é uma raridade, vista pela última vez nas eleições de 89. Para desenhar o cenário eleitoral fizemos extensa análise do pleito para prefeito de 2016, a primeira sob as novas regras eleitorias, e juntamos com a análise das outras corridas para presidente, já apresentada no artigo escrito no fim de 2017. A conclusão foi: o candidato do establishment tem a maior probabilidade de chegar ao segundo turno.

Das 26 capitais brasileiras (excluindo o DF), conseguimos os dados da pesquisa IBOPE do final de agosto e os tempos de propaganda de 20 delas. São, por ordem de tamanho, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Fortaleza, Belo Horizonte, Manaus, Curitiba, Recife, Porto Alegre, Goiânia, Belém, São Luis, Maceió, Natal, Campo Grande, João Pessoa, Aracajú, Cuiabá, Florianópolis e Macapá. Analisamos o comportamento de 91 candidatos, os principais em cada estado segundo a intenção de votos. Apesar da amostra ser pequena, alguns resultados são significantes:

(1) 95% dos candidatos com maior tempo de TV foram para o 2° turno ou foram eleitos no 1° turno. A excessão foi o Rio de Janeiro. 40% dos candidatos com maior tempo na TV começaram líderes, 15% empatados tecnicamente com o 2° colocado, e os outros 45% começaram não-líderes.

(2) 85% dos candidatos com o maior tempo de TV tiveram incremento das intenções de voto entre a pesquisa IBOPE e o 1° turno. As excessões foram Salvador (ACM Neto-DEM 68% -> 64%) e Campo Grande (Rose Modesto-PSDB 25% -> 24%).

(3) 25% dos candidatos com maior tempo de TV possuíam menos de 13% na pesquisa IBOPE e estavam atrás ou no 3° lugar, e passaram ao segundo-turno (SP João Dória-PSDB 9%, POA Sebastião Melo-PMDB 10%, BEL Zenaldo-PSDB 11%, MCP Gilvam Borges-PMDB 12% e GYN Vanderlan-PSB 13%).

(4) Dos candidatos que não tinham o maior tempo de TV mas começaram líderes na campanha, 78% foram para o segundo-turno. As excessões foram SP Russomano-PRB e POA Luciana Genro-PSOL.

(5) 50% dos candidatos tiveram até 1 minuto e 30 segundos de campanha (mesmo que o PT e o PMDB em 2018). Desses, 48% tiveram redução na pontuação entre o IBOPE e o 1° turno.

Juntando os dados

O ítem (1) indica que pode haver correlação reversa entre o tempo de TV e o sucesso eleitoral. Sob esta ótica, o establishment mostra grande competência em aliar-se a candidatos que chegam no segundo turno, errando apenas em 1 das 20 capitais. O (3) mostra que o establishment também consegue vislumbrar o potencial de candidatos distantes dos líderes. Já o ítem (2) mostra que a propaganda na TV e rádio tem efeito inequívoco na pontuação dos candidatos. Estes resultados virtualmente colocam Geraldo Alckmin no segundo turno.

Prever o concorrente do Alckmin é a maior dificuldade destas eleições. Os candidatos com menor tempo de TV (5) mostram chances iguais de subir ou cair nas pesquisas. Por outro lado, candidatos líderes da pesquisa (4) têm grande chance de chegar ao segundo-turno.

Seria necessário uma amostra maior para seccionar os dados entre os candidatos apoiados pelo establishment que saíram de trás e chegaram no segundo turno, e verificar se os 80% de sucesso nos 5 casos destas eleições para prefeito se mantém. Este é o risco desta livre-interpretação dos dados.

O Lula e o PT

As pesquisas com Lula mostram-no com 37% dos votos e larga vantagem para o segundo colocado, causando grande confusão pois não refletem a corrida eleitoral, já que ele não participará. Se concorresse, Lula teria grande chance de estar no 2° turno. É notável a queda da rejeição do candidato e do partido de 2016 até hoje, levando à especulação que Lula tem grande potencial de transferir votos para o seu substituto, Haddad.

Qualquer prognóstico do tipo é especulação. Estatísticas são instáveis, e os índices de rejeição dos candidatos flutuam durante a campanha. Segundo o IBOPE, 62% dos eleitores usam a televisão para se informarem. Uma propaganda negativa do PT pode aumentar a rejeição do partido. Haddad é menos conhecido que os outros candidatos, mas não é possível correlacionar o desconhecimento com o potencial de transferência de votos. Por isso avaliamos Haddad como um candidato com potencial, 1 minuto e 30 segundos de TV e a mesma dificuldade dos outros para derrotar o establishment. Começando com apenas 4% das intenções de voto, as chances do PT chegar ao segundo turno são baixas.

Concluindo, nossos cenários de maior probabilidade para o segundo turno são Alckmin vs Bolsonaro e Alckmin vs Marina. Alckmin deve continuar a subir nas pesquisas, acelerando após o início da propaganda na TV.

19 COMMENTS

  1. Trabalho estatístico sensacional, parabéns a equipe versa pela análise! Até então não havia lido nada parecido em nenhum outro meio.

  2. O problema era:
    O Lula não ia preso
    O Lula foi preso, mas aguarda o julgamento do recurso
    O Trump com a Coreia do Norte
    A crrise na Turquia
    A pesquisa das eleições
    O Lula ser solto
    Entre 993 outros motivos

    Sempre temos 1000 motivos para perder e poucos motivos para ganhar

  3. Luiz, análise interessante.
    Mas acredito que tenha um outro grande fator que altera tudo isso que você comentou. É o fato de que nunca numa eleição o peso das redes sociais foram tão importantes! E, posso estar enganado, mas me parece ser um fator que vai ser mais determinante do que o tempo de TV dos candidatos.
    Diante disso, não sei realmente até que ponto esse maior tempo de TV para o Alckmin será tão determinante para afirmar que ele com certeza vai para o segundo turno. Bolsonaro, Marina Silva, Ciro, até mesmo Alvaro Dias tem mais seguidores do que Alckimin..
    E me atrevo a dizer algo a mais. Nas ultimas semanas, o João Amoedo teve um “boom” de novos seguidores bastante encantados com a renovação que o partido prega, ficando atras somente do Bolsonaro. Na ultima pesquisa do Datafolha ja se percebe um crescimento por intenção de votos à ele e acredito vá aumentar ainda mais nas próximas.
    Além disso tudo, infelizmente Lula também tem peso nas redes sociais. A hora que ficar definitivo que ele não poderá concorrer, e começar a fazer a campanha de apoio ao Haddad, é fato que as intenções para o Haddad começarão a subir, inclusive podendo passar o Alckmin! Somado a isso, o segundo maior tempo de televisão é da petralhada.
    Por todos estes fatos, tenho muitas ressalvas com essa certeza toda do Alckmin no segundo turno..

  4. Gostaria de entender mais sobre o fundo. .observo e aplico a um ano ..e neste período de volatilidade do mercado. .mesmo com a bolsa positiva o fundo parece acompanhar os ganhos. .nas baixas da bolsa as perdas são mais que o dobro..o que leva essa variação ..pois no início do ano mesmo a bolsa em alguns momentos se baixa o fundo foi positivo.
    edinei_c@hotmail.com..Se puderem me enviar algum material. .É que mercado financeiro não é meu forte apesar de entender de números. .kkk obrigado. .mesmo assim acredito no fundo pois observo o potêncial de ganho que possui. .
    Abraços.

  5. Se o establishment ganhar (Alckmin, Cérebro de Titica ou Amoedo), eu salvo o que der (ou sobrar até lá) do meu dinheiro, procuro um colete ou quem sabe um bote, e pulo do navio.
    Se Marina ou Haddad ganhar, vou vendo o que acontece com preocupação, mas esperança.
    Quando o Ciro ganhar, eu fico junto até a maré acalmar, e retomarmos com certeza a velocidade de cruzeiro em 1 a 2 anos.

    • Gabriel, faço minhas as suas palavras!
      Às vezes vejo essas análises de mercado, percebo uma certa torcida para candidatos do establishment e percebo nisso uma certa miopia. Uma miopia que só enxerga o próprio mercado, desconsiderando todo o resto do país. Daí se vê um certo benefício no curto prazo, a custo do resto da população. No médio longo prazo, com aumento da desigualdade, perdemos todos.

    • Acho que fui injusto em colocar o Amoedo no primeiro grupo, ele ficaria melhor no segundo, junto com Marina e Haddad. São todos bem intencionados nos valores, mas sem um projeto consistente de retomada do desenvolvimento do país, como propõe mais detalhadamente o Ciro.

      • Vai da certinho ué, nem briga vai dá. Você usa o Bote com Ciro, e eu uso com Alckmin e companhia limitada.

  6. Luiz, de filosofia ok esta bem fundamentado, porem a realidade e que o fundo em agosto esta -20%. podemos esperar o que ate outubro -50% ? limita a perda e melhor nao ganhar nada do que perder.

  7. Se o Versa raiz estivesse aberto eu dobraria meu investimento nele. Todos os candidatos com chance de ganhar já demostram que vão atacar os principais problemas do país – até porque se fugir, todo mundo quebra. Quem diria que todos os candidatos estariam propondo um modelo de previdência de catalização? Assim que passar o alvoroço os fundos vão se recuperar. A subida do Versa será meteórica!

    • Perfeito Marcelo, concordo com você até certo ponto, mas é bom lembrar que foi o Ciro quem de fato trouxe a ideia e vem detalhando essa ideia. Os outros só copiaram da boca pra fora, sem nenhuma proposta concreta pro assunto. Assim como o IVA, assim como a integração das polícias, assim como a redução dos incentivos fiscais à empresas que não tragam retorno de fato, como forma de acabar o com o deficit em 2 anos. Tudo isso é proposta do Ciro.

      Os demais apropriaram-se da ideia, sem saber como implementar estas questões. O neo liberal do novo não tem noção nenhuma de projeto de país, só a repetição da velha cartilha que nunca funcionou: “privatiza tudo e acabe com o estado que tudo melhora naturalmente.”

      O Alckmin um farsante, mancomunado com toda a corrupção do psdb. Bolsonaro provavelmente não leu nem uma página do próprio plano de governo. O PT com haddad embora um otimo quadro, pode ficar subordinado ao fisiologismo do partido, que parece não ter aprendido nada com os proprios erros.

      Acredito que se o candidato eleito não tiver um compromisso pessoal com as questões propostas na campanha, os interesses dos lobbys irão se sobressair novamente aos interesses do país.

      Enfim, então é bom ter cautela.

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