EUA x China – Guerra Comercial?

As tensões aumentaram entre EUA e China na semana passada. Os países trocaram medidas protecionistas, e as manchetes já declararam guerra comercial. O que achar de tudo isso?

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Donald Trump anunciou que irá taxar importações da China totalizando US$60bn em 25%. Os Chineses retaliaram, prometendo tarifas contra a carne de porco, frutas, vinho e alumínio reciclado dos EUA (~US$3bn). O impacto dessas medidas é pequeno: de 0,1%-0,2% no PIB Chinês e menos que isso para o PIB americano, mas existe um componente simbólico maior. Como 2ª maior economia do mundo (e uma das que mais cresce), a China é uma ameaça legítima à supremacia econômica/militar/tecnológica dos EUA no longo prazo1. Tal almeaça não justifica um conflito militar, mas existem medidas “pacíficas” que podem ser usadas para evitar ou retardar esse avanço.

A tarifa de importação é uma delas. Quando um país tem déficit comercial com outro (ele importa mais que exporta), a tarifa de importação dói direto no bolso do outro país, pois prejudica os produtores de lá. Dói também no bolso do consumidor interno, que passa a pagar mais pelo produto, e acaba consumindo menos. Quem ganha é o produtor local, que aumenta sua participação nas vendas internas (mais volume) e consegue preços mais altos. O governo federal também ganha, pois aumenta a arrecadação de impostos. Somados os efeitos, o país que impõem a tarifa perde como um todo, pois a perda do consumidor interno é maior que os ganhos dos produtores e da arrecadação. Economistas chamam isso do deadweight loss. Se houver retaliação do outro país então, vira o jogo e a perda aumenta.

É muito fácil quantificar os impactos positivos para o produtor local e para o governo, mas é quase impossível calcular (e inspirar protesto com) a perda do consumidor. Por isso, quando Donald Trump procura uma solução pacífica para seu “problema China” a tarifa aparece como opção. Não é a melhor coisa a se fazer mas o governo Trump prefere isso ao avanço desenfreado do seu parceiro asiático.

Os EUA tiveram um déficit comercial com o resto do mundo de US$796bn em 2017. A China representou US$347bn, quase metade do total. As medidas mencionadas acima mudam pouco esse cenário, mas outras maiores podem surgir. É difícil definir até onde uma onda de retaliação pode chegar, mas as perdas claras descritas acima nos levam a crer que existe um limite prático paras as sanções.

Até a eleição de Donald Trump em 2016, os EUA apoiaram uma onda de integração com outros países (redução de tarifas e barreiras de importação) que aumentou expressivamente o comércio global. Isso se formalizou com a assinatura do Global Agreement on Tariffs and Trade (1949), mas também foi resultado de: (1) muita tentativa e erro: entre 1789 e 1934, o país oscilou bastante entre altas (até 62% na média dos produtos importados) e baixas tarifas de importação em diversos produtos; e (2) a maior lição de todas, o Smoot-Hawley Tariff Act of 1930, que trouxe tarifas de importação para mais de 20 mil produtos importados. Hoje este é considerado um dos motivos pela duração e profundidade da Grande Depressão. Diz a lenda que antes de sua aprovação mais de mil economistas assinaram uma carta em protesto às tarifas, mas foram ignorados.

Cada ciclo de alta nas tarifas durante esse aprendizado teve sua motivação maior, seu “problema China” do momento, que parecia maior que a necesidade de um fundamento economico sólido. Ao longo do tempo os EUA (e o mundo) perceberam e foram corrigindo o erro, mas Donald Trump levantou o defunto.

A incerteza gerada pelas tarifas levou as bolsas ao redor do mundo a quedas na semana passada. Os mercados vivem um ambiente raro de paz, crescimento, inflação baixa e liquidez sincronizados na maioría dos países. Uma guerra comercial, dependendo do tamanho, poderia interromper esse ambiente favorável, distribuindo deadweight loss mundo a fora.

Isso é motivo para discussões intensas aqui na Versa. Resumidamente, acreditamos que: (1) se não houver uma piora significativa no ambiente de comércio internacional, a maior parte das economias teriam como executarem um “soft landing”; (2) um conflito maior entre EUA e China pode ser ruim para ambos, porem pior para os EUA dado o momento da economia americana (beirando topo de ciclo, com problema fiscal e juros mais altos pela frente) e a solidez da economia Chinesa, que vem promovendo reformas mirando a redução do risco financeiro do país e buscando aumento da integração econômica com países vizinhos; (3) o Brasil, que é fornecedor importante de commodities para o mundo e sente o efeito positivo do crescimento global sincronizado, sofreria com uma guerra comercial de grandes proporções.

Dado as lições do passado, as medidas podem ser menos dramáticas que o discurso raivoso até então, que o mercado até digere bem, como em 2017, ano que não faltaram manchetes assustadoras no ambiente geo-politico global.

  1. Arthur Kroeber, Dragonomics.

6 COMMENTS

  1. Gostaria somente de agradecer a atenção e a preocupação de dividir com os cotistas a avaliação dos gestores do fundo acerca dessa variável que está afetando o mercado e causando tantas incertezas. Esse relacionamento do fundo com seus cotistas é realmente um diferencial e agrega muito valor ao serviços que prestam. Parabéns!!!!!

  2. Vou opinar como (muito) leigo. O cenário externo é sempre muito variável: EUA x Coreia do N., EUA x Russia, EUA x E.I.
    Qualquer coisa pode acontecer e parar o surf de vários anos de crescimento. A China teve alguns percalços, mas tem muita capacidade de corrigir rumos e manter o próprio crescimento mesmo com guerra comercial. Os EUA parece que vai continuar com a mesma tendência de crescimento (graças a Deus!!!) e fortalecimento. Que ninguém despreze o lema de Trump: “Primeiro os EUA”. Isso significa crescimento lá.

    Não sei quando a Bolsa brasileira vai aprender a não ter tanta correlação negativa com a americana. Lá sobe, aqui cai, lá cai aqui sobe. Qualquer boa notícia para eles, é queda para nós. Ou seja, estamos sujeitos às nossas próprias notícias e às deles… como se não bastassem nossas incertezas políticas, fiscais, sociais, etc.

    Essa correlação negativa com a bolsa americana não sei se é histórica (ainda sou novo… rsrs), mas deve ter relação com as duas décadas de governos de esquerda no Brasil e a dependência de nossa economia dos parceiros comerciais atuais, China e etc. (um detalhe, que pouco importa aqui, mas acho que deveríamos enquanto país privilegiar parcerias comerciais com os EUA, Reino Unido, Alemanha, Japão e Israel…).

    Bom, se nossa correlação é negativa com os americanos, e os EUA podemos considerar competentes em manter a direção acenada e a direção acenada é de priorizar os interesses americanos o que significa fortalecimento da economia e liderança global dos EUA, então… finalmente… acho que o VERSA poderia tentar fazer o que eu individualmente gostaria de fazer se pudesse: ter 20% da carteira em um Fundo com as mesmas características do VERSA (alavancados) só que nos EUA ou Reino Unido, em moeda forte. Ex: QQQ3.

    Enquanto isso, não é privilégio do VERSA não conseguir saber o futuro. Leio Valor, XP, Lopes FIlho e Empiricus (sim, eu leio Felipe Miranda e até gosto) e ninguém sabe ler o futuro. O Felipe até admite isso, e com estilo. Não se preocupem, vocês vão errar como todo mundo. Espero que não errem sempre… rsrs Importa que a estratégia do VERSA é boa. E seguir, às vezes, o consenso do mercado brasileiro sobre subidas e descidas, ainda que ninguém saiba o futuro, não é mal. Acaba passando por prudente.

    É isso, aí, força, bom trabalho. E nunca deixem a moral baixar nas quedas.
    Abraços.
    FM

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