Macro Brasil – “O mercado antecipa tudo”

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A revisão do PIB

Na formação dos preços das ações, expectativas dominam a realidade. O consagrado método do fluxo de caixa descontado (DCF) traduz a dominância através da matemática. Para encontrar os fluxos futuros é necessário projetar o crescimento da empresa, que é função da economia e suas variáveis, como o desemprego, a inflação e o nível do câmbio. Quanto mais endividada a empresa, maior o peso das expectativas no valor das ações.

No último mês o mercado revisou para baixo a expectativa de crescimento em 2018. Esperava-se 3% e as estimativas caíram para 1%-2% em função do fraco crescimento do início do ano. A revisão de 2018 jogou água fria nos mercados, mas a tendência do PIB continua positiva. Depois de cair -3,8% em 2015, -3,6% em 2016 e subir 1% em 2017, se os 1,5% de 2018 se confirmarem a economia continuará em aceleração, favorecendo investimentos e a geração de empregos. A questão chave, portanto, é a gestão do próximo presidente.

As eleições

Neste momento achamos impossível prever quem vencerá as eleições. Como qualquer produto de consumo pessoal (shampoo, lâmina de barbear, sabão em pó, etc.), o desempenho dos candidatos é afetado pelo investimento em marketing de cada um. Quanto maior a exposição do cliente ao produto, maior a propensão a comprá-lo ao invés do concorrente. Por isso não surpreende que o Bolsonaro, candidato com maior presença nas mídias, largasse na frente. Quando a campanha começar, entretanto, os candidatos farão um esforço de marketing concentrado e desigual em função das regras do fundo eleitoral. Por isso, é inevitável a ascensão de candidaturas com maior disponibilidade de recursos, tanto financeiro quanto o tempo de propaganda. Dois dos partidos com as maiores fatias dos recursos eleitorais, o PT e o MDB, sequer definiram os seus candidatos. Os presidenciáveis declarados não têm chapa definida, tampouco apresentaram os projetos de governo. Assim, temos convicção que o quadro eleitoral irá mudar.

Todos os líderes da corrida presidencial reconhecem o déficit fiscal como o maior problema a ser resolvido, e têm diferentes soluções. A necessidade da reforma da previdência é ponto comum entre todos. Bolsonaro, Alckmin e Marina pretendem atacar o problema com propostas liberais para a economia, em grande parte continuações das políticas do governo Temer. Ciro Gomes é o único com soluções heterodoxas. Assim, vemos ¼ de chance de cairmos na forma desconhecida de atacar os problemas corretos. Apesar das propostas intervencionistas do Ciro desagradarem, os resultados das política econômicas também são influenciados pela conjuntura, que favorece o Brasil.

Os juros, as exportações e a inflação

O Brasil é um país repleto de dotações naturais, que nos fazem grandes exportadores de commodities. O setor agrícola vai muito bem. A produtividade da soja e do milho por hectare cresceu nos últimos anos graças à intensa pesquisa e avanços tecnológicos. A exportação de minério de ferro também vem crescendo com as expansões da Vale. A produção de celulose teve forte expansão com as novas plantas da Eldorado e da Fibria. Por último, a Petrobrás está em vias de aumentar a produção. Além das quantidades crescentes, os preços das commodities em dólar estão nos maiores patamares dos últimos 3 anos e o Real está nas mínimas históricas. Como a economia interna ainda está fraca, as importações estão deprimidas. Com isso a balança comercial vem atingindo recordes sucessivos, que devem continuar. A entrada de recursos no país estimula a economia.

Graças a grande recessão, os juros nominais caíram ao menor valor da história. As empresas, que têm grande parte das dívidas atreladas ao CDI, sentiram imediatamente os benefícios da queda nos juros. O consumidor ainda sofre com os altos spreads bancários mas a queda na inadimplência e o cadastro positivo devem aumentar a competição e forçar a queda dos juros. 

A combinação de juros estimulativos e moeda depreciada é benéfica para a economia se não levarem a uma escalada da inflação. O alto desemprego e a capacidade ociosa da indústria tornam difíceis os repasses dos aumentos de custo para o preço final. Com isso, a inflação deve continuar comportada por um bom tempo, permitindo o juros continuar baixo. Com este cenário não há motivo para o Banco Central combater a desvalorização do Real com os juros.

Conclusão

O sell-off do mercado começou após a greve dos caminhoneiros, que parou o país em função do rápido aumento do diesel que acompanhou a alta do petróleo. O fundamento da greve é o mesmo da inflação baixa: a dificuldade em repassar o aumento de custos para o consumidor de frete em função do excesso de caminhões. Para terminar com a greve o governo Temer seguiu o mesmo protocolo adotado por FHC na greve de 1999: ouviu os pleitos, atendeu às demandas, e depois ordenou o uso da força para a desocupação das estradas. O governo, desarticulado e desgastado, mostrou baixo poder de barganha e deu subsídios para segurar o preço do diesel apesar do déficit fiscal. Por outro lado, o subsídio vale só até o final do ano e a crise dos caminhoneiros deu fôlego à discussão dos impostos. A única forma de reduzir a carga tributária e o déficit primário ao mesmo tempo é através de uma drástica redução do Estado. Se a discussão permanecer até as eleições, deve favorecer candidatos liberais. Ainda, como o governo Temer está prestes a ser substituído, a sua fraqueza tem pouco impacto sobre as perspectivas da economia.

Resumindo, não vemos mudança nas perspectivas macroeconômicas que justifiquem o péssimo comportamento da Bolsa nos últimos 2 meses. O mercado antecipa tudo, mas também erra. As condições para a aceleração do crescimento continuam presentes. As reformas indispensáveis e o equilíbrio fiscal são temas dos principais candidatos. O quadro apresentado pelas pesquisas (2o turno entre Bolsonaro e Ciro) está entre os piores possíveis. Como temos convicção que o quadro irá mudar, quando a campanha de fato começar, as surpresas devem ser positivas.

27 COMMENTS

  1. Boa análise. A única ressalva é quanto à opinião negativa quanto ao Bolsonaro. Ele é o único candidato conservador, e o único de direita com alguma chance. E, em um eventual segundo turno com o comunista do Ceará, dificilmente perderá.
    Aliás, não descarto uma vitória dele ainda no 1o turno.

    • O problema com o Bolsonaro – no campo econômico – é que durante toda sua carreira politica ele assumiu posturas nacionalistas e estatizantes. Será que quando Paulo Guedes falar: “Vamos privatizar….Vamos reformar a previdência dos militares….” ele vai acatar? Acho que ele tentou surfar na “onda” direitista sem saber do que se tratava.

  2. Fechando posição neste fundo. Só da positivo quando a bolsa está no ganho. Bolsa derretendo e o gestor parece que nao sabe operar vendido. Se for operar com bolsa em vie positivo, eu opero sozinho. Boa sorte a quem ficar.

  3. Faltou considerar a “crise dos emergentes”. Depois de Argentina e Turquia, BR é a bola da vez, o que faz os estrangeiros retirarem recursos irracionalmente. Se o cenário traçado se concretizar, esse dinheiro volta rápido.

  4. Desculpe , mas estamos ,atualmente, na ponta errada em quase tudo. Este otimismo do gestor não existe ! Os fundamentos estão se deteriorando … Dólar disparando, long derretendo . Pensei q por ser long biased pelo menos nos protegeria nas quedas . Tá pior q long only . Longo prazo , ok ! Se não perceberam , a bolsa vai ser instável até a eleição … Qdo vejo uma reportagem q ancoram o desempenho do fundo a cenário eleitoral A ou B ou C , me pergunto qto o fundo é capaz de sobreviver na adversidade. OOqto é resiliente. O q foi dito acima pode não se concretizar . Se der tudo errado, pra onde vai o fundo ? Confio na equipe competente do versa , mas aguardo o quinzenal p entender o qto estamos cautelosos com o futuro é em consequência com pequena parte de nosso patrimônio.

    • Infelizmente você tem razão. Pegamos esse movimento na ponta contrária, e estamos sofrendo muito. Por outro lado, quando olhamos as empresas, fica clara uma baita oportunidade de compra. A economia real não se move na velocidade dos mercados. O Brasil não está entrando em recessão, as empresas não estão entrando em dificuldade, pelo contrário. Agora é uma baita oportunidade de investir. Um abraço,

      • Luiz, sei que é uma oportunidade boa de investir, mas o rombo das contas públicas serão mais fortes no ano de 2019, Brasil pode recorrer ao FMI, caso não haja reforma. Acredito nos fundamentos de vocês, são competentes, contudo temos que ressaltar que o Ibovespa está se comportando similar a 2008 em maio, quando rompeu um topo de 69, sei que teve a bolha imobiliária, mas atualmente temos o risco de 4 aumentos pelo o FED americano e a política protecionista do Donald Trump está elevando esse risco, mercado já fala da alta de 6% na treasurie e o Trump quer repatriar grana, porque precisa ser financiado. Eu estou com o Fundo até o fim, mas não é por um momento que vamos desacreditar nos fundamentos, como vc disse, temos que aproveitar as baixas. Estou com o Versa e acredito em dias melhores

        • Álvaro, não confunda o Brasil de 2002 com o de hoje em dia. A situação é completamente diferente! Não temos mais endividamento externo, pelo contrário, somos credorex externos. Temos amplas reservas, que não tínhamos. Também não tem nenhum paralelo com a crise de 2008. O sistema financeiro brasileiro e global está líquido e solvente. Os 4 aumentos do FED são esperados desde o início do ano, e inclusive as taxas de juros longas americanas estão estáveis ao redor de 3%. Não se deixe impressionar por esses catastrofistas que, em benefício próprio, ficam espalhando o pânico por aí.

  5. No dia 25 de abril eu fiz um comentário perguntando sobre se o fundo tinha alguma carta na manga caso a bolsa caísse a menos de 70k e o dólar ultrapassasse os R$ 4, como eu imaginava. Parece até que tive uma visão. Se fizesse parte da gestão, o fundo estaria voando agora.

  6. Esse foi o comentário:

    Luiz, bom dia!

    Vejo com muita preocupação esse movimento do mercado, com bolsa estagnada e dólar subindo como foguete e pra completar, ano eleitoral, com eleições cada vez mais próximas. Pergunto, há o algo que a equipe do Versa possa fazer em curto prazo, caso essa alta do dólar se prolongue, rompendo a barreira dos R$ 4 e a bolsa caindo para menos de 70.000 pontos, para não só evitar um grande prejuízo como até se aproveitar desse movimento, ou se isso ocorrer, a perda seria inevitável?

    E a resposta:

    Luiz Alves 25 de Abril de 2018 at 11:39

    Bom dia Mariel! Não acreditamos que esse cenário (dólar a 4 e bolsa caindo para 70k) seja o mais provável, e também não vemos lastro nos fundamentos para isso acontecer. Tudo mais constante, se isso acontecer, provavelmente incorreremos em uma perda e aproveitaremos para aumentar ainda mais a exposição à bolsa.
    Reply

  7. Luis, boa tarde! Acredito muito no fundo e nos gestores (gelo no estômago). Depois de ganharmos 43% no ano e agora ainda 16%, natural que os amigos fiquem tristes como eu também estou. Sei que estamos trabalhando a longo prazo, mas espero que estejam pensando preservar o nosso patrimônio nas quedas e que na minha opinião serão muitas durante o ano.

    • Fabio, é da natureza do ser humano achar que vai cair mais quando está caindo, e vai subir mais quando está subindo, mas não é bem por aí. As oportunidades de investir surgem justamente nas quedas. Dificl acreditar em outras como o IRB, por exemplo, que tiveram perda expressiva na receita financeira, além de possível aumento da sinistralidade do crédito agrário, não caíram NADA! Por isso, estamos tristes de termos “devolvido” grande parte do resultado do ano, por outro lado estamos animados com as oportunidades que estão surgindo!

  8. To vendo muito otimismo da equipe em relação a economia brasileira, o que pra mim é ilusão. Nenhuma grande reforma foi feita, o mercado de commodities não tá grandes coisas, as contas do governo continuam péssimas, a economia ta se recuperando muito timidamente, ta basicamente estagnada.
    Não vejo nada que indique uma recuperação de fato e o mercado percebeu isso, somando ainda o problema das eleições, até o fim do ano é muito mais provável que a bolsa continue em queda, eu esperava que o fundo tivesse boas posições vendidas pra ganhar nessa situação também, mas aparentemente não é o que tá ocorrendo.

    • Bernardo, a balança comercial brasileira está atingindo récordes atrás de récordes mas, independente disso, é preciso lembrar nessa hora que ações são fatias de empresas, que possuem ativos, que têm valor! Empresas de energia elétrica vão continuar vendendo energia independente do nível da bolsa. Empresas de lajes comerciais, como a BR Properties, têm imóveis cujo valor não cai com a bolsa. Outro exemplo grotesco são as ações de siderurgia. Aço é uma commoditie, que fica mais caro quando o real deprecia. A quantidade de aço produzida aumentou junto a produção de autos e linha branca, que ainda estão muito abaixo do pico. Veja você que apesar do aumento do volume e do potencial aumento de preço, Usiminas está caindo 25% no ano. Essa é a hora de ter frieza, separar o jogo do trigo, e INVESTIR

  9. Eu adoro ler esses comentários… alguns um tanto “desesperadores”, talvez pela falta de conhecimento de mercado. É impossível prever situações como essas, por mais que o gestor esteja preparado, não adianta, alguma posição vai cair mais do que a outra, são muitas estratégias adotadas, articuladas e bem acompanhadas diariamente. Confio na capacidade do gestor na busca das melhores oportunidades. No tempo certo. Nesse blog tem muitos “gestores” Você deveria ter feito isso, está na contramão do mercado…o fundo não é um long biased?… fala sério…
    Eu tenho 3 especializações em investimentos e atuo há 15 anos no mercado financeiro, diretamente ligado à recomendações de investimentos. Estou vendo grandes corretoras com carteiras/portfólios sugeridos que estão com um VOL de 8,23% e “entregando” nesse cenário – 510% negativo do CDI, e bancos de primeira linha com VOL em sua carteira sugerida de 2,36% e tendo queda de -110 CDI. E eu pergunto para vossa? Qual foi a estratégia mais acertada? Posição conservadora ou gestão ativa?ambas buscavam a mesma coisa, retorno de capital para o investidor. O que aconteceu? 95% das casas no mercado precificaram uma queda da taxa Selic e se preparam para isso, e o COPOM atuou diretamente na manutenção da taxa, causando grande volatilidade principalmente nos ativos prefixados. Devido abertura da curva de juros. Haja visto varios fundos de renda fixa “devolvendo” (- 300%) do DI.
    Enfim, o cenário mudou, as cotas desvalorizaram e logo valorizarão novamente, o mercado é assim… hoje mais variável do que ontem.
    Que tem apetite ao risco, geralmente mantém a posição, deixa o recurso a logo prazo, não está preocupado com volatilidade de curto ou médio prazo e certamente já possuía alguma posição cambial em sua carteira para proteção. Acredito que o gestor tem toda expertise e formação suficiente para tomar as decisões corretas no momento certo. Desfazer de posição agora justamente quando a ação está desvalorizada é prejuízo na certa. Todo mundo sabe disso.Também vejo esse momento como oportunidade de investimento, cotas desvalorizadas, ações baratas, empresas descontadas. Enfim, cada qual faça suas próprias análises.
    Trabalhei muito para conquistar meu patrimônio, Estou vendo minha cota apenas desvalorizar, não perdi nada. É momento de ter paciência e deixar o gestor trabalhar. Esperar a cota valorizar. Abraços e sucesso à equipe e bom trabalho! Vamos que vamos! Dias melhores virão!

  10. Bacana o retorno. É ruim quando a gente entra num momento de queda, se eu tivesse pego aquela alta de 40% nem estava entrando no site pra saber o andamento. De toda forma, mesmo estando em -12%, estou tranquilo, não desespero com cenários assim. Única situação que me deixaria realmente preocupado, seria chegarmos próximo a ter que colocar mais dinheiro pra cobrir eventual prejuízo.

    Gostaria de poder aportar mais recursos nessa oportunidade que se abre, mas teria que tirar de fundos de 30 dias de resgate que também estão na baixa. devo manter como está e esperar.


    A única coisa que não gosto é essa insistência em taxar o Ciro de esquerdista radical, quando é o único com propostas solidas pra reformar o país.

    Sei que aqui não é o local adequado pra este tipo de debate, mas gostaria bastante de entender na visão dos gestores o que o Ciro sempre questiona, o que seria esse “através de uma drástica redução do Estado”. Redução onde? Privatização de setores estratégicos como petróleo e energia elétrica não é algo ruim a longo prazo pra um país? Não seria possível melhorar a eficiência do estado ao invés de desfazer desses setores? Como exemplo o fato de a Noruega ter um regime bem sucedido de exploração do seu petróleo via setor estatal, com altos retornos financeiros ao país, não serve de bom exemplo pro Brasil?

    Sobre a previdência, sabemos que é impossível a realização de uma reforma de mudança imediata, tanto porque a legislação não retroage para ferir direitos adquiridos, como pelo fato de que quem legisla pra mudar as leis, são os maiores beneficiados desse sistema (juízes, promotores, executivo). A proposta do Ciro de um regime de capitalização acima de um patamar, tanto setor público como privado, e um período de transição para os demais, não é boa?

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