O acordo da OPEP não vai funcionar

A OPEP chegou a um acordo para reduzir a produção do cartel em 1,2 milhões de barris por dia, o que animou os mercados. A intenção do cartel é elevar o preço do petróleo, mas existem 3 motivos para o acordo não funcionar

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Gráfico Brent 1 ano
Gráfico do Brent, 1 ano. Fonte: Bloomberg

A grande notícia da semana para as commodities foi o acordo da OPEP para reduzir a produção de petróleo em 1,2 milhões de barris por dia, o equivalente a pouco mais de 1% da demanda mundial. A reação dos mercados foi imediata e o barril de petróleo (Brent) subiu 17% em 3 dias, atingindo US$ 54,46, seu maior valor em 2016. O objetivo do cartel é inflar os preços da commodity para aumentar a receita dos países membros e estancar a deterioração fiscal que assola a todos, da Arábia Saudita à Venezuela, mas isso não vai funcionar por 3 principais motivos:

 

 

1- a OPEP perdeu significância

Fatia de mercado da OPEP e o Petróleo (1965-2014)
Fatia de mercado da OPEP e o Petróleo (1965-2014)

Na grande crise do petróleo entre 1973-1974, quando o cartel restringiu a oferta à países desenvolvidos e fez o barril subir 400%, a OPEP produzia 50% do petróleo mundial. Atualmente, o market-share do cartel não chega a 35%. Por isso o acordo só tornou-se viável com a adesão da Russia, país não-membro com produção equivalente a 12% da demanda global, o que eleva a fatia de mercado da OPEP a 47%. Se a OPEP já tem dificuldade em fazer os membros cumprirem as cotas dos acordos, é impossível garantir a fidelidade de um país não-membro como a Rússia.

Uma prova que o cartel tornou-se refém da situação é o próprio acordo com a Rússia, cuja produção está nas máximas históricas, e comprometeu-se apenas a não elevar sua produção em 2017, com crescimento estimado em 300 milhões de barris por dia, ou 0,3% da demanda mundial, impulsionado pelas descobertas no oceano Ártico.

 

Plataforma no Artico
Plataforma no Artico

2- O corte equivale à produção americana do petróleo de xisto que saiu do mercado com a queda no preço da commodity

Um dos maiores contribuidores para a queda do petróleo foi a descoberta do gás de xisto nos EUA, que fez a extração saltar de 5,5 milhões de barris por dia em 2011 para 9,6 mm bpd em junho de 2015. O último ano de ramp-up da produção americana foi acompanhado da queda vertiginosa do petróleo, que caiu de USD 110 para USD 65 por barril entre junho de 2014 e 2015, o que estimulou o fechamento de diversos poços com custo de produção elevados. Com isso, de julho 2015 até hoje a oferta americana diminuiu em 900 mil barris por dia, ou 75% do corte proposto pela OPEP. Diferente da redução de oferta por exaustão de poços, esses 900 mil bpd estão prontos para voltar ao mercado no momento que o preço do petróleo atingir o break-even dos poços, limitando o espaço para alta da commodity

3- A revolução energética

A evolução tecnológica está ligada, desde o início dos tempos, à utilização de mais energia por menor custo. Assim aconteceu primeiro com os moinhos de vento, que chamam de a verdadeira primeira revolução industrial, e impulsionou a rota da seda. Depois, com a descoberta do carvão, veio a conhecida revolução industrial do século 18, das mudanças dos meios de produção. Mais a frente o petróleo trouxe outra revolução industrial, com grande impacto nos meios de transporte, e atualmente estamos em transição para uma nova era, das baterias.

Petróleo é usado em grande parte como gasolina, diesel e querosene de aviação. Nos EUA, pioneiros nessa revolução energética, carros de passeio correspondem a metade do consumo de petróleo. Como os EUA consomem 21% do petróleo mundial, seus automóveis sorvem 10%. Atualmente carros híbridos, alimentados por bateria e gasolina, já se encontram pelas ruas, mas carros puramente elétricos ainda são raros pelo alto custo e baixa autonomia. Esta realidade está prestes a mudar.

A Tesla, empresa líder em inovação neste setor, também quer sair na frente na fabricação de baterias baratas, e para isso está construindo sua primeira Gigafactory nos EUA, a maior empresa em área construída do mundo.

Tesla Gigafactory
Projeto da Tesla Gigafactory

Com essa escala massiva, a Tesla espera reduzir em 30% o custo das baterias e dar viabilidade econômica a carros elétricos populares e sistemas de armazenamento de energia. A Tesla terá capacidade para produzir 1,5 milhão de automóveis por ano, além de baterias residenciais com capacidade para desconectar a casa da rede elétrica. O exemplo da Tesla ilustra a mudança na matriz energética do mundo que está apenas no começo, mas terá profundo impacto no mercado de petróleo. Como pregava Joseph Schumpeter a evolução se dá pelo processo de distruição criativa, onde antigas tecnologias vão sendo substituídas por novas de maior eficiência, e acabam desaparecendo. O petróleo reinou solitário no transporte de passageiros durante anos, mas as baterias estão prestes a tirar o seu lugar.A velocidade que esta transformação irá acontecer é impossível de prever, mas a substituição será exponencialmente crescente.

Casa Tesla com telhado de painéis de energia solar, pacote de baterias residencial e carro elétrico
Casa Tesla com telhado de painéis de energia solar, pacote de baterias residencial e carro elétrico

Concluindo, elementos conjunturais e estruturais fazem contraponto à tentativa da OPEP de elevar o preço do barril de petróleo. Na atual conjuntura, a OPEP depende da fidelidade de um país não-membro para garantir o equilíbrio do mercado, e os EUA, que não fazem parte do acordo, possuem capacidade ociosa equivalente ao corte proposto pelo cartel. Assim, maiores altas do petróleo faria essa capacidade voltar ao mercado, derrubando os preços novamente. No longo prazo, com a mudança estrutural de petróleo por bateria, o consumo global da commodity está fadado a uma longa tendência de queda até patamares inferiores impossíveis de prever, mas certamente em um preço de equilíbrio mais baixo. Quem sabe no futuro a OPEP, que possui o menor custo de extração de petróleo do mundo, volte a ter mais de 50% de market-share e passe a dar as cartas novamente.

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