A Semana Macro (03/11) – Sobre a Segunda Onda

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Photo by PAU BARRENA / AFP

Não vemos a segunda onda do covid com tanta preocupação por enquanto. No hemisfério norte, as medidas de isolamento social tem sido mais brandas do que na primeira onda, o que deve impor impacto igualmente moderado na atividade econômica. A evolução dos protocolos de tratamento deve manter os número de óbitos relativamente contidos por lá. No Brasil, a queda dos casos em um contexto de elevação gradual dos indicadores de mobilidade sugere que a imunidade de rebanho está fazendo seu trabalho em algum grau por aqui.

As preocupações com uma segunda onda no hemisfério norte subiram de tom na semana passada, causando forte correção dos mercados. A aceleração na curva de novos casos levou boa parte dos países da Europa a anunciar novas medidas restritivas. Além da queda generalizada das bolsas, a elevação do risco causou forte valorização do dólar no mundo. Em dólares o Ibovespa perdeu 9.3%, só perdendo atrás da Turquia (-11.2%) e para a Argentina (-14%) entre os emergentes.

Gráfico 1: Bolsas mundiais na semana passada(%)

Fonte: Bloomberg

Nesta ressurgência chama atenção a desconexão entre as curvas de casos e mortes na Europa. Enquanto o número de novos casos já é 5 maior do que o pico de abril, o número de novas mortes beira 1/3 do que foi naquele período. Tal descolamento se deve a diversos fatores, entre eles o aumento da capacidade de testagem, mudança no perfil etário dos infectados (mais jovens) e diminuição da mortalidade com a melhora dos protocolos de tratamento. Entre estes pontos, o aumento da testagem provavelmente é o mais relevante: o número de exames diários realizados na maioria dos países da Europa aumentou entre 5 e 15 vezes no período.

Gráfico 2: Novos casos e óbitos por milhão de habitantes na Europa Ocidental (mm7d)

Fonte: Johns Hopkins University e Versa Asset

Com o número de óbitos relativamente contido seria natural questionar a necessidade do endurecimento das medidas de isolamento implementadas na Europa. Aqui valem duas considerações. Em primeiro lugar, as restrições anunciadas são em geral mais brandas em relação àquelas do começo da crise. Por ora, a maioria dos países apenas restringiu o funcionamento de comércio não essencial principalmente ligados ao setor de lazer, mantendo escolas, indústrias e outros serviços funcionando.

Em segundo lugar, a métrica para analisar a gravidade do problema não deveria ser exatamente o número de óbitos, mas sim o de internações. Protocolos mais eficientes de tratamento da doença, e consequente redução da mortalidade, só fazem efeito se o sistema de saúde puder atender a todos. Neste aspecto, os números de internações mostram um quadro que mereceria atenção. Os últimos dados, ainda do dia 25, mostravam aceleração importante. Na Bélgica, por exemplo, onde o número de óbitos por habitante foi o maior da Europa na primeira onda, as internações já se aproximavam do pico anterior.

Gráfico 3: Pacientes hospitalizados por milhão de habitantes

Fonte: European Centre for Disease Prevention and Control

O repique dos casos na Europa e em algumas regiões dos EUA também tem levantado dúvidas sobre o argumento da imunidade de rebanho. Afinal, esta parecia explicar a queda repentina da doença a partir de maio. Estariam as pessoas antes infectadas na primeira onda perdendo sua imunidade? Felizmente, este não parece ser o caso por enquanto. Passados mais de 6 meses entre o pico da primeira onda e esta segunda, ainda não há indícios de reinfecção pela doença em larga escala.

Vale dizer que a própria mensuração do número de imunizados na população através de inquéritos sorológicos tem seus problemas. Embora estes testes sejam capazes de identificar a presença de anticorpos no sangue, a concentração dos mesmos diminui com o tempo, dificultando sua identificação. Isto não significa que o indivíduo perdeu sua imunidade, mas apenas que a mesma não pode ser identificada.

Se a imunidade de rebanho ainda não foi atingida na Europa, seria igualmente natural questionar sobre os riscos de uma segunda onda em outros países, em especial no Brasil. Em nossa visão este risco parece baixo. Deixada de lado a possibilidade de uma vacina nos próximos meses, a própria dinâmica da doença por aqui parece sugerir que já atingimos uma imunidade de rebanho “genuína”, pelo menos em algum grau.

A dinâmica da curva de mortes no Brasil tem sido diferente do padrão dos países europeus. A curva por aqui foi mais achatada. A explicação seria de que embora o distanciamento social tenha começado suficientemente cedo por aqui, ele não foi efetivo o bastante para conter a reprodução do vírus. De fato, temos visto uma queda lenta da doença nos últimos dois meses a despeito do aumento contínuo dos indicadores de mobilidade. Ou seja, outro fator estaria por trás desta redução.

Gráfico 4: Índice de mobilidade social (mm7d)

Fonte: Google e Versa Asset

Um maneira alternativa de estimar a quantidade de pessoas imunizadas seria a de utilizar o número total de óbitos dividido por alguma taxa de mortalidade. No Brasil até hoje morreram aproximadamente 750 pessoas por milhão de habitantes. Vale dizer, este número não é muito diferente daquele dos países europeus mais atingidos pela doença na primeira onda. Se estes países ainda não atingiram a imunidade de rebanho, como parece ser o caso, por que deveríamos tê-la atingindo então?

Neste sentido, vale notar que a taxa de mortalidade no Brasil é provavelmente muito menor do que na Europa, o que implicaria um número bem maior de imunizados para a mesma quantidade de mortes. Em primeiro lugar, há diferenças etárias. No Brasil a fatia da população com mais de 65 anos é de 10%, enquanto na maioria dos países europeus esta razão gira em torno de 20%. Como sabemos, as taxas de mortalidades por covid são desproporcionalmente maiores entre idosos. Além disso, vale notar que a maioria das mortes na Europa aconteceram no início da da pandemia, em um contexto de sobrecarga do sistema de saúde e pouco conhecimento sobre tratamento da doença. Considerando todos estes fatores, parece justo imaginar uma taxa de mortalidade em torno de 0.3% no Brasil e algo como 0.7% na Europa. Fazendo a conta reversa, teríamos cerca de 25% da população brasileira já inume ao vírus, contra 10% na Europa. Este número passaria de 30% nas principais capitais brasileiras.

Em suma, não vemos a segunda onda do covid com tanta preocupação por enquanto. No hemisfério norte, as medidas de isolamento social tem sido bem mais brandas do que foram na primeira onda, colocando impacto igualmente moderado sobre a atividade econômica. A evolução dos protocolos de tratamento deve manter os número de óbitos relativamente contidos por lá. No Brasil, a queda dos casos em um contexto de elevação gradual dos indicadores de mobilidade sugere que a imunidade de rebanho está fazendo seu trabalho em algum grau por aqui.






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