A Semana Macro (29/06) – Segundas Primeiras Ondas

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A epidemia nos EUA seguiu em alta, aumentando também os temores de uma “segunda onda” da doença por lá. Gostaríamos de aprofundar um pouco a discussão com novos dados e concluir: os casos devem seguir aumentando invariavelmente nas próximas semanas. A impressão é de que algum grau de imunidade de rebanho e o medo do vírus (na população e nos governantes) são, infelizmente, condições necessárias para que a epidemia volte a desacelerar em boa parte do país. A boa notícia é que estas regiões estão em situação relativamente mais favorável para enfrentar a epidemia e conter a mortalidade.

A percepção de risco seguiu em alta nos mercados com a escalada da epidemia nos Estados Unidos durante a semana. O índice S&P 500 recuou 3% levando junto a maior parte das bolsas do mundo. De fato, o número de novos casos diários por lá, que vinha diminuindo consistentemente desde de abril, saltou 80% em apenas 15 dias para cerca de 40 mil por dia na última semana, um novo recorde. Não seria de se estranhar que esta subida fosse associada a temores de uma “segunda onda” da doença por lá e gerasse certa frustração nos mercados. Afinal, os números na Europa pareciam sugerir um baixo risco de que isso acontecesse após a reabertura da economia.

Argumentamos na semana passada que este repique ainda estaria longe de apontar uma segunda onda no sentido estrito da palavra. Ou seja, não indicaria uma re-aceleração dos casos nas regiões antes mais afetadas mas sim um aumento da epidemia onde a doença ainda não havia avançado. Gostaríamos de aprofundar um pouco a discussão com novos dados e concluir: os casos devem seguir aumentando invariavelmente nas próximas semanas. A impressão é de que algum grau de imunidade de rebanho e o medo do vírus (na população e nos governantes) são, infelizmente, condições necessárias para que a epidemia volte a desacelerar nestas regiões. A boa notícia é que estas regiões estão em situação muito mais favorável para enfrentar a epidemia e reduzir a mortalidade.

Antes de seguir, vale atualizar a análise da semana anterior. O gráfico abaixo mostra a evolução do número de novos casos por milhão de habitantes nos EUA dividido em duas regiões. Os estados “líderes” são aqueles onde a epidemia começou mais cedo e os “retardatários” onde começou mais tarde. Como regra, colocamos no grupo de líderes os estados onde a taxa estimada de infectados (% da pop.) era maior do que a média nacional no final de maio. Víamos um padrão claramente distinto, onde o aumento dos novos casos era exclusivamente puxado pelos retardatários, enquanto os líderes seguiam em queda. Nesta semana, no entanto, até os líderes voltaram a subir. Seria uma segunda onda “de verdade” desta vez?

Gráfico 1: Novos casos por milhão de habitantes (mm7d) em regiões selecionadas dos EUA

Fonte: Johns Hopkins University e Versa Asset

Para tentar responder esta e outras perguntas, analisamos os dados de forma ainda mais desagregada: por counties, ou “condados”. Estas são subdivisões administrativas dos estados americanos, totalizando pouco mais de 3 mil micro regiões. Desta forma, podemos colocar diferentes regiões de um mesmo estado em categorias distintas dependendo da evolução do vírus, além de permitir uma maior quebra destas categorias.

Para começar, ordenamos os condados pelo número estimado de infectados por habitante. Quebramos estes em 20 grupos, cada um com 5% da população americana. Ou seja, no 1º grupo estariam os condados relativamente mais atingidos pela epidemia e assim por diante até que no 20º grupo estariam os menos atingidos. No gráfico abaixo, mostramos estes grupos e suas respectivas taxas de crescimento no número de novos casos da doença no últimos mês.

Nota-se um padrão claro. De um lado, todas as regiões que foram antes mais afetadas pela pandemia (“líderes”) tem visto uma queda consistente no número de novos casos no último mês, mesmo depois do início da reabertura econômica. Como cada ponto representa 5% da população americana, estamos falando de 25% do país. De outro lado, todas as regiões “retardatárias” (75% da população) tem mostrado forte aumento no número de casos no mesmo período.

Gráfico 2: Crescimento (% MoM) nos novos casos em função da taxa de infectados* em diferentes regiões dos EUA

* estimado com o número total de mortes reportadas e taxa de mortalidade de 0.6%
Fonte: Johns Hopkins University e Versa Asset

Como a taxa de infectados varia muito entre as cinco regiões “líderes”, vale olharmos a trajetória de cada uma delas. No gráfico abaixo vemos a evolução do número de novos casos diários (média móvel de 7 dias) para cada uma destas regiões, da mais infectada (grupo 1) até a menos infectada (grupo 5). Também podemos notar algum padrão. Em primeiro lugar, e como era de se esperar, as regiões mais infectadas tiveram uma subida mais rápida e um pico mais precoce da epidemia. Em segundo lugar, podemos ver que as regiões 3, 4, e 5 já começam a mostrar algum sinal de “repique” no número de novos casos nos últimos dias. Apenas os grupos 1 e 2 seguem firmes e fortes na redução.

Gráfico 3: Evolução no nº de novos casos por milhão de habitantes nas 5 regiões “líderes”

Fonte: Johns Hopkins University e Versa Asset

Seria este um sinal de que apenas as áreas que foram muito afetadas estariam livres de uma segunda onda? Para tentar achar alguma relação neste sentido, desagregamos as regiões líderes um pouco mais, em 20 grupos de mesmo tamanho, ilustrados no gráfico 4 abaixo. Vemos que, em geral, quanto mais alta é a prevalência da doença na região, mais forte tem sido a queda do número de novos casos no último mês.

Gráfico 4: Crescimento (% MoM) nos novos casos em função da taxa de infectados nas regiões “líderes”

Fonte: Johns Hopkins University e Versa Asset

Que conclusões tirar e o que esperar?

A impressão que temos ao olharmos os dados desagregados é de que a epidemia nos EUA deve continuar piorando por algum tempo. De fato, as regiões “retardatárias” representam algo como 75% da população e partem de uma base muito baixa. Isto sem falar que parcela relevante das regiões líderes também tem dado sinais de algum aumento, ainda que pequeno, nos últimos dias.

Há duas hipóteses que parecem fazer sentido para explicar o avanço da epidemia nas regiões retardatárias. A primeira seria por um argumento “atualizado” da imunidade de rebanho.  Lembrando, a imunidade de rebanho diz que o vírus precisaria infectar cerca de 60%-70% da população para que a epidemia desapareça. A ideia agora seria de que com medidas básicas de distanciamento (máscaras, conscientização, restrições a grandes eventos, etc) este liminar seria muito menor: algo entre 20% e 30% da população. Desta forma, enquanto algumas regiões já haveriam chegado lá (líderes), outras (retardatárias) ainda precisariam ver seu número de infectados crescer antes de atingir tal “imunidade”.

A segunda hipótese é a de que o distanciamento social seguiu aquém do necessário nas regiões retardatárias. A ideia seria de que tanto a população quanto os governantes só se mobilizariam quando a situação se agravasse. De fato, nos surpreendeu descobrir que apenas um terço dos estados nos EUA estão obrigando o uso de máscaras a esta altura do campeonato. Uma breve inspeção nas regras de fechamento (e reabertura) impostas em algumas regiões dá a mesma impressão: o distanciamento social em grande parte dos EUA foi sensivelmente mais brando do que no Brasil.

Gráfico 5: Estados onde é obrigatório o uso de máscaras em lugares públicos

Fonte: CNN

A boa notícia é que o número de mortes nestas regiões segue muito baixo e ainda não começou a subir. Uma explicação seria a de que há uma “revolução silenciosa” em curso nos protocolos de tratamento da doença, reduzindo gradualmente a mortalidade sem que para isso precisemos ter nenhum remédio milagroso sendo anunciado. Além disso, a idade média dos infectados tem caído nos últimos meses, o que tem reduzido naturalmente a taxa de letalidade. No entanto ainda é difícil acreditar que o número de mortes não comece a subir nos próximos dias dada a relevância populacional das regiões retardatárias.

Gráfico 6: Mortes diárias por milhão de habitantes nos estados “retardatários” (mm7d)

Fonte: Johns Hopkins University e Versa Asset

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